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Amores plurais são possíveis: um breve ensaio sobre experiências livres amorosas

(Fonte: http://passapalavra.info/2014/08/99005)

Os acordos devem ser feitos e refeitos a partir dos sentimentos e desejos que surgem entre os pares, pois estamos suscetíveis a todo momento a nos depararmos com uma nova situação e um novo sentimento. Por Amanda Calabria

“É experiência aquilo que “nos passa”, ou que nos toca,Ou que nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma. Somente o sujeito da experiência está,portanto, aberto à sua própria transformação.”Larrosa Bondía

O texto que se segue não pretende ser um manual para quem deseja construir relações amorosas não monogâmicas – relação alguma funciona a partir de uma espécie de guia. O ensaio tem por objetivo compartilhar uma breve reflexão sobre relacionamentos livres que não se encerra em si, longe está de se esgotar sobre o assunto e é fruto de experiências pessoais e trocas com pessoas próximas que também buscam vivenciar aquilo em que se acredita, além de ser consequente da reflexão dos estudos libertários a respeito.


A motivação da escrita se deu por algumas razões. Inicialmente a nível de um esclarecimento pessoal, depois porque muitos dos textos a respeito não satisfazem meu entendimento sobre “teoria” e “práxis”. Ou trazem concepções calcadas no amor neoliberal, patriarcal e capitalista, ou reproduzem discursos aparentemente libertários mas com fortes raízes heteronormativas, ou ainda falam do amor livre de maneira tão utópica e idealista que me parece descolado da prática e da compreensão da dominação patriarcal e da relação de poder entre gêneros. Há algum tempo queria escrever a respeito, mas só agora me sinto segura por conta da vivência construída, do acúmulo de afetos, casos e situações e das consequentes resoluções de conflitos.

Pelo entendimento mais holístico de “amor livre” podemos dizer que é uma forma de se relacionar horizontalmente com uma, duas ou mais pessoas se pautando por sentimentos como afetividade, solidariedade e comprometimento ético. A feminista e libertária Maria Lacerda de Moura falava de “amor diversão”, “amizade amorosa” e “amor plural” como momentos de educação do homem e da mulher para conquistarem a “possibilidade de amar”. Amor livre ou plural é uma forma de se relacionar contra hegemônica que questiona os modelos de relação patriarcais e capitalistas, não se definindo por um modelo específico de amor. As relações se pautam justamente pela liberdade e experimentação de acordo com os afetos e anseios dos envolvidos. O amor livre, sobretudo, escapa às categorias.

Gostaria, ainda, de deixar claro que não me atenho aos conceitos, teorias e categorizações de relações não monogâmicas comumente conhecidas, tal como “relações abertas”, “relações livres” e “poliamor”, pois temo que as conceituações com seus “acordos” estabelecidos às vezes levam mais ao engessamento as relações. Além do fato da suposta racionalidade que atravessa a “autonomia sexual” e “autonomia emocional” me parecer distanciada de uma prática sincera e coerente. Mas não tenho intenção de deslegitimar aqueles que se pautam e se organizam pelos conceitos mencionados acima. Ative-me, contudo, ao “amor livre” pela abrangência do termo a um campo maior de formas de relações amorosas e por ter sido a primeira reivindicação de experiência amorosa contra-hegemônica no seio da cultura libertária, quando também despontaram as primeiras reivindicações feministas contra o casamento burguês, a opressão machista e contra a moral sexual e seus códigos sociais.

Larrosa Bondía nos fala que algo só é apreendido se vivenciado, se passado pela experiência. Entendendo por experiência aquilo que acontece aos sujeitos, o que “nos passa” e “nos toca”; só assim somos capazes de atribuir significado e ter compreensão real de algo. Para Bondía o sujeito só se permite à experiência se está receptivo e disponível, se está “exposto” ao perigo, à vulnerabilidade e ao novo. Bem, sobre esse papo de amor livre, creio ser importante não descolar “teoria” e prática. E é sobre essa experiência que descreve Bondía a que nos referimos no presente ensaio, com todos os riscos e gozos, mas também com possibilidades de profunda transformação e aprendizado.

Sabemos que muitos homens sonham com essa história de relações não monogâmicas. Bem, alguns libertários e tantas mulheres também. Mas para construir todo sonho é preciso pés no chão. Não vejo amor livre horizontal sem uma caminhada séria e comprometida eticamente com o outro. A fetichização e idealização do amor livre numa teoria muito bem construída gera frustrações e sofrimentos se ignorada uma série de constructos sociais, culturais, históricos e políticos que perpassam as relações. Vivenciar o amor livre é estar sempre num processo de experimentação, amor livre é caminhada, estrada longa a ser percorrida, pois nunca se “está lá” no fim ideal. O devir e as intempéries da vida não nos deixam estáveis por muito tempo e “vira e mexe” as relações entram em crise e em reformulação, tendo os amantes que reconstruir e traçar novos acordos.

Penso que nessa busca partimos, na maioria das vezes, de um desejo no qual nossos anseios individuais possam ser respeitados. Também almejamos ver os pares livres, embora isso não seja tão claro. Muitos buscam relações sinceras e harmônicas. Mas, na prática, não há relação sincera se não somamos os anseios com uma busca constante por uma série de desconstruções. Desconstrução do ideal de amor neoliberal, que é o que se “encontra nas prateleiras”, que se pauta pela lógica de completa objetificação do outro – alvo de constantes desejos nunca saciáveis de relações superficiais – e, por isso, o outro é sempre descartado e substituído por um novo fetiche ou uma nova aspiração, como uma mercadoria, usada e descartada. Desconstrução do amor burguês romântico baseado na ideia de família nuclear, essa por vez fundamentada no sentimento de posse e propriedade do outro e numa busca inalcançável e sem sucesso pela complementaridade (sempre frustrada) que condena ainda as práticas amorosas extra-conjugais. E ainda a, talvez, mais difícil desconstrução: a mentalidade patriarcal que atravessa os relacionamentos. E isso é um esforço, principalmente, levado a cabo pelo parceiro do gênero masculino (se é uma relação que envolva um homem cis) que deve se empenhar cotidianamente por romper com o machismo do qual ele não está isento (por mais “feminista” e libertário que seja), romper com os seus condicionamentos e suas formações sociais e reconhecer seu privilégio e seu papel histórico-social nas relações.

É muito fácil fazer apologia do amor livre e condenar a monogamia, o patriarcado e o ciúme ferrenhamente eximindo o homem da reprodução de práticas machistas e culpabilizando a mulher pelo ciúme e a insegurança sentidas, advindas do mito do amor romântico – o qual a mulher foi estimulada a sentir e a buscar desde que ganhou sua primeira “Barbie” e “Ken” ou escutou seu primeiro conto de história romântico. É muito fácil desejar amor livre e não considerar que os homens, desde a infância, mas objetiva e enfaticamente desde a puberdade, são estimulados a se relacionarem livremente com seus órgãos sexuais e que é inculcado igualmente em seu imaginário a necessidade de se ter relações sexuais sem qualquer peso moral. Que os homens são notoriamente compreendidos se possuem mais parceiras sexuais, ou não são repreendidos e categorizados por isso. Que os homens não precisam de uma mulher para serem livres, independentes e “bem sucedidos”. Ou que não precisam de uma “mulher salvadora” para tirá-los da casa de seus pais. E, por fim, que eles são estimulados a sentirem desejos sexuais por mais de uma parceira, e isso é motivo de muito prestígio e poder no ethos em que se inserem. É muito fácil.

Seria ridículo dizer que nós, mulheres, vivemos desde a infância tudo isso às avessas? Que vivemos desde a infância na bolha da “casinha de bonecas” cheias de inseguranças e que só nosso “macho salvador”, príncipe encantado, pode garantir a estabilidade e segurança que precisamos para a vida adulta? Que somos consideradas o sexo frágil? Que a nossa sexualidade é reprimida e que mal conhecemos nossas genitálias pois elas sempre foram condenadas? Que somos taxadas de “vagabundas” ao nos relacionarmos com mais de um parceiro? Que a cultura do estupro vem nos culpar quando somos violentadas? Que somos criminalizadas se não levamos a cabo uma gravidez? E que o índice de homicídio de mulheres por seus parceiros sexuais, sobretudo, por considerá-las como propriedades suas, é altíssimo? Bem, acho que isso e muito mais nós, mulheres, estamos cansadas de saber.

O fato é que não dá para falarmos de amor livre senão levamos em conta o universo de dominação e violência masculina no qual estamos inseridas e submetidas pela nossa condição de nascer e nos tornarmos mulheres na sociedade patriarcal. E, mesmo tendo noção de tudo isso, pois somos exímias(os) militantes, desconstruir essas premissas naturalizadas a dois (ou a três e quatro) na prática é difícil, árduo e não menos doloroso. O amor livre, assim como toda construção não hegemônica, para ser construído dói. Por outro lado, vivenciar uma relação sincera com si próprio e com o outro é extremamente prazeroso, amoroso e transformador.

Ao considerarmos todos os aspectos necessários de se reestruturar na relação, penso que é egoísta somente condenar o ciúme e os ciumentos, as fraquezas e inseguranças sentidas numa relação plural. É preciso assumir inicialmente nossos lugares sociais, reconhecer os nossos anseios e de nossos parceiros mais profundos e caminhar se transformando e se desconstruindo, ajudando o outro cotidianamente a lidar melhor com as sensações.
Os homens têm ainda trabalho dobrado. Se realmente comprometidos a vivenciar o amor livre, não devem temer a desconstrução de seu “machismo sagrado” em todos os aspectos quando colocadas em xeque as posições privilegiadas que ocupam. Muito menos se apavorarem com suas parceiras quando elas passam a, cheias de si, conquistar a autonomia que a vida inteira elas não tiveram, o que, com muita certeza, irá fazê-las rever o espaço que ocupam os homens em suas vidas até então.

Atento também que para a construção de amores livres ser possível é de suma importância dialogar com o outro sobre os afetos. Tenho para mim que o diálogo sincero é a chave para a construção de toda relação. Não que se tenha que contar tudo ao outro, cada relação deve ter o seu “acordo” estabelecido, que não é rígido e firme. Os acordos devem ser feitos e refeitos a partir dos sentimentos e desejos que surgem entre os pares, pois estamos suscetíveis a todo momento a nos depararmos com uma nova situação e um novo sentimento. E assim, as relações vão tecendo combinados diferentes. O amor livre jamais pode ser “Sou livre e faço o que quero”; esse discurso mais se assemelha a uma perspectiva individualista neoliberal, na qual os anseios do individuo são postos em prática a todo custo, o que causa, possivelmente, dor, angústia e insegurança no outro.

A minha experiência me transforma dia-a-dia. No meu caminhar ainda trôpego experiencio o ciúme, a insegurança e todos esses afetos considerados “mal vistos” pelos amorosos pluralistas que são inevitáveis na interação com outras pessoas, direta ou indiretamente.
Meus bons três anos de amor plural me fizeram crer que a horizontalidade das relações, que o sentimento de se sentir responsável pelos laços criados e a sinceridade no diálogo é a chave para uma vida de amores múltiplos harmônica. Que mesmo que se tenha um companheiro fixo nem por isso se deve negligenciar o cuidado com os outros parceiros amorosos e sexuais, uma vez que o cuidado, o respeito e a amizade são potencialmente aliados. (Descobri que é maravilhoso aliar a amizade, aproximando-a do “sexo” e do “amor”, afim de se estabelecerem laços de troca e respeito entre os parceiros. Mas, bem, essa também é uma construção longa e cautelosa.)

Penso, sobretudo, que é possível tecer redes de amor livre e fortalecê-las sempre se fundamentando em uma cumplicidade ética com outro. Amor não se divide, se soma, se multiplica. E quando nos relacionamos, nos comprometemos com o outro – o que, contrariando o amor neoliberal, comprometimento não é ruim, é cuidado, é laço criado, é se tornar responsável pelas suas ações.



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